
Por volta de 1h da madrugada de segunda-feira, 31 de agosto, Nova Friburgo acordou com clarões sucessivos e trovoadas fortes. Foram 57 milímetros de chuva em poucas horas, com registro de granizo no bairro Olaria, e a Defesa Civil contabilizou pelo menos três quedas de árvores em diferentes bairros. A instabilidade já havia começado na tarde de domingo, com raios, trovoadas e granizo em vários pontos da cidade, além de alagamento em trechos da RJ-130. Enquanto muita gente filmava a tempestade da janela, tutores enfrentavam outro problema dentro de casa: o cachorro com medo de trovão, tremendo atrás do sofá, arranhando a porta ou tentando pular o muro. avozdaserraavozdaserra
Esse comportamento não é manha nem desobediência. É uma reação de pânico — e, em noites como a de domingo e segunda, ela é a principal causa de fugas e atropelamentos de animais na Região Serrana.
Por que o medo de trovão provoca fugas
O animal em pânico não avalia risco. Ele procura escapar do estímulo, e portão, muro e tela deixam de ser barreiras. Especialistas apontam que o gatilho não é apenas o barulho: o comportamento é multifatorial e envolve também a chuva, o vento e a sensação de falta de abrigo — uma somatória de fatores, e não somente o ruído em si. metropoles
Dois erros comuns pioram o quadro. O primeiro é punir o animal assustado ou prendê-lo à força quando ele tenta entrar em casa desesperado; o segundo é a crença de que expor o pet à chuva vai acostumá-lo — na prática, isso só piora a situação. Portanto, a orientação é o oposto do senso comum: acolher, reduzir estímulos e nunca conter o animal à força. metropoles
Identificação atualizada na coleira (e por que ela não basta)
Antes da próxima frente chegar, revise a plaquinha da coleira. O telefone precisa estar legível e ser o número que você atende de madrugada. No entanto, a identificação na coleira, embora importante, é muitas vezes insuficiente, porque o animal pode perder o acessório justamente na fuga. integrativapet
Por isso, a microchipagem é a camada complementar. Um estudo da Associação Americana de Médicos Veterinários com mais de 7.700 animais de abrigos constatou que 52% dos que tinham microchip com dados atualizados voltaram para casa. Vale lembrar que o dispositivo não funciona como GPS: ele precisa ser submetido a uma leitora para exibir o número, que então é checado em bancos de dados. Cadastro desatualizado anula o benefício — se você mudou de telefone, atualize. integrativapetintegrativapet
Como montar um abrigo seguro dentro de casa
Para o cachorro com medo de trovão, o ponto de partida é escolher o cômodo mais interno da casa, longe de janelas. Dê preferência a um local fechado e com cortinas, que ajude a diminuir a intensidade dos sons e do clarão, e que seja à prova de fuga — muitos animais escapam e acabam atropelados ou simplesmente se perdem nas ruas. Manter o ambiente calmo, com música ou televisão ligada, também ajuda a reduzir a ansiedade. Ofereça a caminha ou a caixa de transporte aberta como esconderijo e mantenha água disponível. casapinocasapino
Para gatos, o princípio é o mesmo, com uma diferença: o felino precisa poder escolher o próprio esconderijo. Tirá-lo de debaixo da cama para “confortar” aumenta o estresse.
Quintal, varanda e área de alagamento: os piores lugares
Deixar o animal do lado de fora durante uma tempestade elétrica combina três riscos ao mesmo tempo: fuga por pânico, hipotermia e trauma por queda de galhos ou estruturas. Após o temporal, a orientação foi de atenção redobrada em áreas de risco, como encostas, regiões sujeitas a alagamentos e locais próximos a árvores e estruturas que possam ser atingidas durante rajadas de vento. O que vale para pessoas vale para os animais — e eles não podem se abrigar sozinhos. avozdaserra
Correntes e coleiras curtas em área externa são especialmente perigosas: o animal em pânico se debate e pode sofrer enforcamento ou lesão cervical.
Quando o medo vira emergência veterinária
A maioria dos casos se resolve com abrigo e paciência. Alguns sinais, porém, indicam crise intensa e pedem avaliação profissional:
- salivação excessiva, vômito ou diarreia durante a tempestade;
- automutilação, lambedura compulsiva ou destruição que resulte em lesão;
- tentativa de fuga com trauma (quedas, cortes, unhas arrancadas em portas e janelas);
- tremor que persiste por horas depois que a chuva passou;
- dificuldade respiratória, prostração ou perda de consciência.
Animais idosos, cardiopatas e epilépticos merecem atenção redobrada, porque o estresse agudo pode descompensar um quadro clínico prévio.
Há ainda uma consequência menos visível, que só aparece semanas depois. “Situações de extremo stress podem causar danos comportamentais e emocionais permanentes”, afirma a médica veterinária Dra. Lucilla Montero, fundadora e diretora clínica do Hospital Veterinário Animamed. Ou seja, uma noite de pânico mal manejada não termina quando a chuva passa: ela pode se consolidar como fobia crônica, alterando o comportamento do animal em toda tempestade seguinte. É justamente por isso que a avaliação precoce importa — quanto antes o quadro é tratado, menor a chance de ele se tornar permanente.
Calmante humano: o erro que pode matar
Este é o ponto mais crítico. Diante do desespero do animal, muitos tutores recorrem à caixinha de remédios de casa — e o dado nacional mostra que a prática é comum. A pesquisa Radar Pet, da Comissão de Animais de Companhia (Comac) do Sindan, indicou que 19% dos brasileiros medicam seus animais sem consultar um médico-veterinário; entre 1.751 entrevistados, 9% buscam informação na internet e 22% seguem orientação de outros tutores. caesegatos
O risco é concreto. O CFMV alerta que substâncias aparentemente seguras para humanos podem causar intoxicação em cães e gatos quando usadas sem prescrição, e reforça que analgésicos como ibuprofeno, diclofenaco e paracetamol podem ser altamente tóxicos para pets. O CRMV-PB acrescenta que a medicação inadequada ou em dose errada pode mascarar problemas de saúde ou desencadear efeitos graves, como lesão renal e hepática, e inclusive levar à morte. A explicação está na fisiologia: cães e gatos têm capacidade metabólica diferente da nossa, e a dosagem exige cálculo preciso e individualizado, considerando espécie, raça, porte e condição clínica. Uso de dipirona em cães pede prescrição e atenção aos riscos … +2
Ou seja: nenhum calmante, relaxante ou ansiolítico de uso humano deve ser oferecido ao animal. Existem protocolos veterinários para fobia de ruído, mas são prescritos após avaliação — e, idealmente, iniciados antes da temporada de tempestades, não no meio dela.
Prepare-se antes da próxima tempestade
A previsão indica que o tempo deve seguir instável nos próximos dias, com possibilidade de pancadas de chuva em diferentes períodos. Use esse intervalo para revisar a plaquinha, definir o cômodo-abrigo e agendar a microchipagem. avozdaserra
O Hospital Veterinário Animamed funciona 24 horas, sete dias por semana, na Av. Walter Machado Thedin, 795 — Mury, Nova Friburgo, com pronto-atendimento, UTI e centro cirúrgico. Em caso de emergência durante a tempestade, ligue (22) 2542-1030. Para ocorrências de risco estrutural, a Defesa Civil atende pelo 199 e o Corpo de Bombeiros pelo 193. avozdaserra
Com informações da Dra. Lucilla Montero CRMV- RJ 7990 , diretora clínica do Hospital Veterinário Animamed.



